Do ponto de vista de engenharia e manufatura, peças de titânio produzidas por fusão a laser em leito de pó — frequentemente referidas de forma genérica como SLS, mas mais precisamente descritas como SLM ou DMLS — podem ser utilizadas como implantes médicos se três pilares forem atendidos: uso de titânio certificado para implantes, uma rota de fabricação e pós-processamento validada, e conformidade com as normas e regulamentos médicos aplicáveis. Na prática, combinamos impressão metálica 3D próxima da forma líquida com acabamento subtrativo preciso, como usinagem CNC de Ti-6Al-4V ELI, para garantir integridade mecânica e qualidade de superfície necessárias para implantes de longo prazo.
Para implantes permanentes, o material preferido é o Ti-6Al-4V ELI (Extra Low Interstitial), formulado especificamente para alta resistência à fadiga e biocompatibilidade. No contexto normativo, esse grau corresponde a especificações como ASTM F136 e ISO 5832-3 para ligas de titânio forjadas e fabricadas aditivamente utilizadas em implantes cirúrgicos. O pó metálico deve atender a limites rigorosos de oxigênio, nitrogênio e outros elementos intersticiais, e sua distribuição de tamanho e morfologia de partículas é controlada para garantir fusão consistente e densidade na peça 3D impressa.
O processo de impressão deve ser rigorosamente validado. Para fusão a laser em leito de pó metálico, isso significa definir e bloquear parâmetros como potência do laser, velocidade de varredura, espaçamento de hatch e espessura de camada, visando densidade próxima da total e evitando defeitos como porosidade por falta de fusão ou partículas não fundidas. A validação do processo envolve ensaios de tração, fadiga e tenacidade em corpos de prova construídos em múltiplas orientações, junto com análise metalográfica para confirmar microestrutura e ausência de falhas críticas antes de liberar a rota para programas médicos.
Após a impressão, os implantes de titânio SLM/“SLS” passam por uma cadeia extensiva de pós-processamento. Primeiro, é comum aplicar alívio de tensões ou Hot Isostatic Pressing (HIP) para fechar a porosidade interna e melhorar o desempenho à fadiga. Em seguida, as estruturas de suporte são removidas e interfaces críticas (superfícies de juntas, roscas e encaixes) são finalizadas via usinagem CNC de titânio de alta precisão para garantir tolerâncias e planicidade da superfície. Onde superfícies ultra-lisas são necessárias — como articulações ou cabeças de parafuso — acabamentos finos e eletropolimento reduzem asperezas e melhoram o comportamento ao desgaste.
Para zonas de osseointegração, uma rugosidade controlada é benéfica. Nesses casos, técnicas como jateamento, ataque químico ou texturização a laser podem ser aplicadas nas superfícies de contato ósseo, mantendo outras regiões lisas. Limpeza completa e passivação, seguida de embalagem em ambiente controlado, são essenciais para remover pós residuais, contaminantes e resíduos do processamento antes da esterilização.
O uso de titânio 3D impresso como material de implante não envolve apenas metalurgia — é também uma questão regulatória e de qualidade. Fabricantes devem operar sob um sistema de gestão da qualidade certificado, como ISO 13485 para dispositivos médicos, e implementar controles de processo consistentes com normas de manufatura aditiva metálica (por exemplo, família ISO/ASTM 52900) e materiais de implante. A biocompatibilidade deve ser demonstrada conforme ISO 10993 (citotoxicidade, sensibilização, irritação e, em alguns casos, toxicidade sistêmica), e a validação da esterilização deve estar em vigor para o método escolhido.
Do ponto de vista de acesso ao mercado, implantes produzidos a partir de titânio SLM normalmente requerem aprovações ao nível de dispositivo: FDA 510(k) ou PMA nos EUA, e marcação CE sob o Regulamento Europeu de Dispositivos Médicos (MDR). Cada projeto específico é validado por testes mecânicos (estáticos e de fadiga), inspeção dimensional e, dependendo da classificação de risco, dados clínicos ou animais. Em projetos personalizados de usinagem CNC e aditivos metálicos, geralmente separamos builds “apenas para protótipo” de builds “grau implante” no nível do sistema de qualidade, de modo que apenas peças produzidas sob rota totalmente validada podem ser liberadas como implantes.
Em resumo, peças de titânio SLM/“SLS” podem, sim, ser usadas como implantes, mas somente quando toda a cadeia — pó, processo de impressão, pós-processamento, testes e sistema de qualidade — é projetada e certificada explicitamente para uso em dispositivos médicos. Caso contrário, a mesma geometria é adequada apenas para P&D ou componentes não implantáveis.